1ª Conferência Nacional de Comunicação no Brasil (Confecom)

A 1ª. Confecom, realizada em Brasília, no período de 14 a 17 de dezembro de 2009, reuniu quase 2 mil pessoas (1684 delegados/as – sendo 40% do empresariado, 40% da sociedade civil organizada e 20% do governo –, além de 300 observadores/as), dos 26 estados e distrito federal. Aprovou um total de 672 propostas, depois da análise em 15 grupos temáticos, sendo 601 aprovadas nos grupos com mais de 80% dos votos e 71 em plenária final. As mulheres tiveram participação ativa desde a pressão para sua realização, ao intenso processo preparatório e de debates Brasil afora, até a sua realização. Também foi uma mulher, a deputada federal Luíza Erundina, que fez toda a diferença: a única parlamentar presente entre delegados do Congresso. E de mãos dadas com a sociedade civil, em todo o processo, incluindo o árduo caminho pós-conferência, já que as resoluções aprovadas não se tornarão lei sem um grande movimento de pressão para a necessária mudança no marco regulatório do setor, visando à democratização da comunicação no país.

Antes de tudo, a 1ª Confecom deve ser celebrada por se tratar de um fato inédito em toda a história brasileira. Além disso, trata-se de um evento da maior importância para o avanço do processo democrático, que inclui o direito à comunicação, especialmente na era das novas tecnologias da informação e comunicação, considerando-se que a exclusão digital caminha paralelamente à exclusão social.

A conferência teve três eixos temáticos: I- Produção de conteúdo, II- Meios de distribuição e III- Cidadania, direitos e deveres (ver detalhes no Box 1). As principais discussões estiveram focadas na regulamentação dos sistemas de comunicação, mecanismos efetivos e democráticos para o controle social da mídia e a participação da sociedade na construção de políticas públicas de comunicação.

Como estratégia para enfraquecer o evento que foi oficialmente divulgado pelo governo em abril de 2009, seis dos oito grupos de empresários se retiraram da Comissão Organizadora, em agosto: Abert , Abranet , ABTA , Aner , Adjori e ANJ. Permaneceram a Abra, à qual são vinculadas a TV Bandeirantes e Rede TV, e a Telebrasil , entidade representantiva das empresas da área de telecomunicações. Obviamente, as duas entidades que permaneceram tinham interesses comerciais envolvidos na regulamentação do setor, em função de conflitos dentro da própria classe empresarial. A ala das telecomunicações visa modificar o sistema tributário na área em troca da ampliação da cobertura do sinal e da banda larga, objetivando, também, a distribuição de conteúdo, da mesma forma que as empresas de radiodifusão. Quanto à Abra, interessa principalmente à Bandeirantes e à Rede TV, as únicas a não se retirarem do processo da conferência, quebrar a quase hegemonia da Rede Globo na área de TV a cabo. Soma-se a este interesse, as regulamentações que ampliem a diversidade nas TVs abertas, para que não ocorra a concentração de publicidade. De qualquer maneira, a permanência dessa parcela do empresariado garantiu a pluralidade, com certa margem de participação democrática, pois incluiu representantes dos três setores.

 

Marcação ideológica

Desde a retirada dos poderosos da mídia brasileira, os quais não admitem pensar a comunicação que não esteja subordinada à lógica de mercado e dos grandes negócios, intensificou-se a publicação de conteúdo que mais se caracteriza como “ação orquestrada da mídia”, na avaliação de João Brant, no artigo “A grande mídia unida contra a democracia” (www.direitoa comunicação.org.br). Como esses empresários de comunicação não admitem a possibilidade de existir um sistema de mídia democrático, eles passaram, por exemplo, a analisar uma demanda da conferência voltada para o controle social, como o “retorno do sistema ditatorial”. Como bem ressalta João Brant, “601 propostas obtiveram consenso ou mais de 80% de aprovação dentro dos grupos, então, nem precisaram de votação.” As demais “foram aprovadas na plenária final, e nenhuma delas foi entendida como tema sensível por todos os setores. Nenhuma das propostas é um ataque à liberdade de expressão ou contra a Constituição Federal. Pelo contrário, muitas delas procuram aumentar a liberdade de expressão na mídia (hoje, restrita aos proprietários) e regulamentar os artigos da Constituição brasileira que estão lá há 21 anos, sem serem aplicados, especialmente em função da pressão do setor empresarial. Dois temas têm sido escolhidos pelos grandes veículos quando criticam as resoluções: a proposta de criar um Conselho Nacional de Comunicação e a criação de um Conselho Federal de Jornalistas.” Ao tentar impingir um caráter ideológico às reivindicações de ativistas dos movimentos sociais, o empresariado busca permanecer no conforto dos monopólios de mídia.

Como se vê, a mobilização das organizações da sociedade civil assustou aos empresários. Na verdade, todos os tópicos demandados pelos movimentos sociais vêm sendo construídos há vinte anos. Esta foi a razão pela qual Lula, o presidente do Brasil, prometeu – durante o Fórum Social Mundial, em Belém, em janeiro de 2009 – convocar uma conferência nacional para discutir políticas públicas de comunicação no país. O decreto de convocação foi aprovado em abril de 2009. Foi, então, formada uma comissão organizadora nacional com 26 membros – 10 do poder público e 16 da sociedade civil (8 da organizada e 8 da empresarial). Afora essa comissão, todos os delegados foram eleitos nos estados, a maioria tentando respeitar a proporcionalidade e a diversidade de segmentos. Lula aprovou R$ 8.2 milhões (aproximadamente, USD 4.7 milhões) para a conferência.

Desde abril, a sociedade civil organizada começou o processo preparatório, incluindo a realização de conferências municipais e estaduais, mesmo quando não existia suporte local de prefeitos e governadores que pertenciam, geralmente, a partidos contrários ao federal (PT – Partido dos Trabalhadores). Em São Paulo, por exemplo, o prefeito e o governador se esquivaram de apoiar. O suporte ficou por conta da Câmara Municipal e da Assembléia Legislativa. Enfim, Brasil afora, a sociedade civil organizada transpôs todas as barreiras e se uniu para discutir e politizar um tema complexo e relevante para o aprimoramento da democracia.

 

Mulheres qualificam participação

Conscientes da necessidade de revisão das estratégias na luta pela justiça de gênero na era digital, mulheres de diferentes setores da sociedade civil organizada começaram a participar do processo da conferência desde abril de 2009, discutindo aspectos específicos de interesse, mas também focando no direito à comunicação como um passo fundamental para o avanço de um país democrático. E, agora, continuam a participar…

Mas, como qualificar a participação das mulheres em um processo de conferência com temática inédita no país? Três feministas – Jacira Melo, Nilza Iraci e Vera Vieira – decidiram lançar uma publicação, na hora certa e estrategicamente, intitulada Fazendo Lobby, que foi distribuída às participantes do processo de preparação da conferência, em diversas regiões do país. A iniciativa foi apoiada pelo projeto Metas do Milênio 3 (Fortalecimento das Mulheres para o Uso Estratégico das TIC, visando o combate da violência contra mulheres e adolescentes), com coordenação geral da APC/ PARM (Associação para o Progresso das Comunicações / Programa de Apoio às Redes de Mulheres), que está sendo realizado em doze países. No Brasil, a coordenação é de Vera Vieira, pela Rede Mulher de Educação. A coordenação latinoamericana é de Dafne Plou e a mundial de Janine Moolman. Esse projeto se propõe a ajudar às mulheres na negociação do campo das TIC, apoiando, para tanto, diversas ações, no período entre 2009 e 2011.

A publicação Fazendo Lobby fez, de fato, a diferença. Era comum encontrar mulheres participantes com o livro em mãos, agradecendo por poder se inteirar de todas as nuances e informações que envolvem um processo de conferência. Trata-se de um instrumento que procurou ser simples e prático, sem perder a profundidade requerida pela temática. Apresenta uma contextualização dos novos tempos e do conteúdo do regimento da 1ª. Confecom, além do passo a passo da difícil arte de fazer lobby no universo de luta por direitos das organizações governamentais. Soma-se ao conteúdo um pequeno dicionário para desvendar terminologias e unificar linguagem, assim como uma compilação dos aspectos comunicacionais das diversas conferências nacionais e internacionais. A era digital apresenta uma nova realidade, com as coisas fora do lugar: um novo modo de ver, pensar e agir, com novas noções e tempo e espaço, o que requer uma reorientação das formas de luta por cidadania plena. Trata-se de revisar as práticas sociais para o avanço da luta por justiça de gênero, raça e classe social – considerando-se estes os principais fatores determinantes da diferença de oportunidades e poder entre as pessoas na sociedade.

Para qualificar ainda mais a participação feminina na conferência, integrantes do movimento de mulheres e movimento feminista construíram o documento intitulado “Plataforma das Mulheres para a 1ª Conferência de Comunicação”, enfatizando que “por muito tempo, os movimentos de mulheres organizadas vêm discutido o direito à comunicação, a necessidade de democratização da mídia e a imagens da mulher que são publicadas, que alimentam e reproduzem estereótipos e preconceitos. Temos questionado a seletiva invisibilidade de mulheres negras, indígenas e lésbicas, mas também nossas demandas sociais e políticas, assim como nossa pluralidade. Como resultado da ausência de democracia na mídia, há um monopólio da indústria de comunicação que cresce, cujo principal efeito é a disseminação de nossos corpos e vidas como produtos comerciais, e também a reprodução da violência contra a mulher”.

Em grande parte das propostas aprovadas na Confecom, há termos voltados para a diversidade e a pluralidade, numa nítida demonstração de que estiveram sempre presentes nas discussões dos 15 grupos de trabalho, em todos os eixos temáticos. O grande desafio, agora, é entender profundamente o real significado para ‘gênero, raça e orientação sexual’. Todas as propostas serão uma referência importante para a luta política por um sistema mais democrático de comunicação”. (ver Box sobre as propostas que especificam os direitos das mulheres).

Mesmo considerando que a conferência não tem caráter deliberativo – as propostas serão enviadas para o governo e o congresso, demandando projetos de lei ou decretos do Executivo -, sem sombra de dúvida, o evento teve impactos positivos para as mulheres e para a sociedade brasileira como um todo. As mulheres organizadas em todo país construíram propostas para os eixos da Confecom a partir de uma perspectiva feminista. Pode-se citar, no eixo Produção e Conteúdos, “estimular a produção e difusão de conteúdos não discriminatórios e não esterotipados, valorizando as dimensões de gênero, raça, etnia, orientação sexual, idade geracional”; “assegurar o direito de antena, considerando as diversidades e segmentos discriminados da sociedade”. No eixo Meios de Distribuição, “regulamentação da transmissão de conteúdos religiosos no rádio e na TV, evitando a ocupação indiscriminada do espaço de rádio”. No eixo Cidadania: Direitos e Deveres, “criar mecanismos de controle social que proíbam a veiculação de programação que pratique a discriminação contra mulheres, negros e indígenas, LGBT…”.

 

Aprofundando o debate

De acordo com o portal da Agência Patrícia Galvão (www.patriciagalvao.org.br), sem dúvida, as reivindicações passam pelo combate à linguagem sexista e à visão estereotipada das mulheres veiculada na mídia. Mas vão muito além de temas que, em princípio, parecem dizer respeito apenas às mulheres. A 6ª edição do seminário nacional A Mulher e a Mídia – promovido pela Secretaria Especial de Políticas pela Mulheres e organizado pelo Instituto Patrícia Galvão Comunicação e Mídia – reuniu 260 mulheres de 24 estados para discutir e construir propostas para a 1ª Confecom. Realizado de 6 a 8 de novembro, na cidade do Rio, propiciou um espaço de articulação e debate estratégico, com destaque para o aprofundamentos dos seguintes temas: Mulher, Mídia e Convergência das Comunicações; TV Pública e Promoção da Igualdade de Gênero; Produção de Conteúdos nas Perspectivas e Diversidade; e A Conferência Nacional de Comunicação e o Olhar das Mulheres. “A grande maioria da sociedade desconhece que rádio e televisão são concessões públicas e que, como tais, deveriam ter o controle dos que são os verdadeiros detentores do espaço público. Hoje este patrimônio está concentrado nas mãos de 5 grupos, que monopolizam a produção de rádio e TV há mais de 50 anos”, afirmou a deputada federal Luiza Erundina, para quem o tema das comunicações é mais estratégico que os demais em debate na sociedade. “No dia em que conseguirmos democratizar os meios de comunicação no país, teremos condições de fazer todas as outras reformas”, acredita.

“É necessário construir mecanismos de monitoramento e controle social dos meios, assegurando a participação ativa e constante da sociedade. E, em cumprimento à Constituição Federal, queremos que se regulamente o sistema de outorgas e sejam proibidas as concessões para igrejas. A detenção de concessões por representações religiosas é extremamente nociva para a sociedade, para a questão da diversidade sexual, dos direitos sexuais e reprodutivos, entre outras. Temos que ter regras transparentes e que valham pra todo mundo, para que os nossos direitos estejam garantidos”, acredita Denise Viola, da Rede de Mulheres em Comunicação.

Para que uma agenda das mulheres na Conferência? “Pra mexer numa estrutura de desigualdades e injustiça, sustentada pelo capitalismo, pelo racismo e pelo patriarcado. Para disseminar valores inovadores e diferenciados, para a construção de uma ética e de uma estética que dialoguem com esses valores, para garantir participação política e cidadã com visão crítica, levando a pauta das mulheres para os espaços de decisão da comunicação”, acrescenta Vera Gasparetto, da CUT. Para a ministra Nilcéa Freire, o grande desafio no Brasil, do ponto de vista da consolidação da democracia, é a estruturação do controle social em todas as dimensões da política e da vida social, incluindo a comunicação.

 

Mulher e tecnologias

Garantir a apropriação pelas mulheres das novas tecnologias de comunicação e informação também foi um dos grandes focos de discussão na Confecom, além de tema-chave no seminário Mulher e Mídia 6. Hoje, o debate sobre a convergência ainda é dominado pelos engenheiros de telecomunicações – homens, em sua grande maioria. Mas, se apropriar da tecnologia significa ir além do acesso à internet. “Mais importante é se apropriar do fazer comunicacional neste ambiente de convergência. Ainda que seja importante monitorar a representação da mulher na mídia, mais importante ainda é garantir a participação da mulher na mídia. Nós não estamos sendo só representadas, mas estamos nos representando. Neste cenário, a postura do telespectador passivo é outra. Então vamos fazer mídia e vamos para o ativismo na mídia”, convida Oona de Castro.

Para um dos coordenadores do Intervozes, João Brant, é preciso tratar a questão do acesso e participação das mulheres no cenário da convergência digital a partir da perspectiva do direito à comunicação. “Não estamos olhando para a convergência nos termos tecnológicos ou mercadológicos, mas para fortalecer a liberdade de expressão, um conceito que precisa ser reapropriado por nós. Falamos da convergência como espaço de potencialidades, mas às vezes esse potencial não se realiza. Há muita gente querendo que essa semente não se transforme em árvore”, avalia. Afinal, o cenário da convergência está colocado num contexto social e político de relações de poder e opressão. Essas relações tendem a se reproduzir no ambiente convergente. “Hoje temos uma diferença gritante entre centro e periferia mundial, entre centro e periferia no Brasil, entre homens e mulheres, ricos e pobres, brancos e negros. Esses binômios seguem sendo refletidos e reproduzidos no ambiente convergente, que pode talvez criar um abismo ainda maior entre os que têm e os que não têm”, acrescenta João Brant.

Daí a importância de lutar por políticas públicas de acesso e apropriação das novas tecnologias de informação e comunicação pelas mulheres. “Durante muito tempo, política de inclusão digital era oferecer computador e internet. Hoje as pessoas precisam receber formação para viver e navegar neste mundo”, afirma Marília Maciel. Outro desafio para as mulheres é também participar dos processos de desenvolvimento tecnológico e também de definição da regulação do funcionamento da internet. Quem constrói softwares que fazem a internet funcionar, controla a internet. “A tecnologia não é desenvolvida por pessoas isoladas da sociedade. Ela é resultado do desenvolvimento da nossa cultura e da nossa sociedade. Tecnologia, política, sociedade e cultura andam muito juntos”, explica Marília. “A questão de gênero é muito debatida no aspecto do conteúdo. Mas ainda não está presente no debate sobre o desenvolvimento da internet, da infra-estrutura física e lógica da rede. Se formos nos preocupar com isso lá na frente, vamos encontrar tudo pronto e regulado. Por isso, ou entramos agora neste debate ou vão decidir tudo por nós”, alerta a pesquisadora. Isso pressupõe fazer escolhas e participar dos processos de decisão das políticas de regulação da internet, para fazer com que elas atendam aos interesses das mulheres.

Olhando para o futuro, a conclusão do debate é a de que os desafios são muitos e parecem prioritários de serem assumidos pelo movimento de mulheres na luta pela igualdade de gênero em nosso país. O apoio das mulheres à aprovação do Plano Nacional da Banda Larga, em debate no governo federal, se mostra central, para viabilizar o acesso da população brasileira à internet. “Também temos que produzir websites que sejam acessíveis pelo celular, usar o SMS para manifestações políticas, produzir conteúdo convergente que possa ser ´viralizado´, para contaminar a sociedade com as nossas idéias, e estarmos preparadas para trabalhar com a lógica da instantaneidade”, acrescenta Carla Rodrigues.

Por fim, é preciso um olhar feminista sobre a regulação da internet, os direitos e deveres dos cidadãos e cidadãs. “São temas que dizem respeito à nossa vida cotidiana: privacidade, liberdade de expressão, direito de acesso, etc. Tudo isso cabe um olhar de gênero e é preciso que a gente contribua”, reforça Marília. “A internet surge baseada na horizontalidade, no desenvolvimento colaborativo de conhecimento e na cultura do compartilhamento. Temos a idéia de que a mulher é mais ligada a relações horizontais entre si, as mulheres são vistas como pólo doador de qualquer relação e são mais compartilhadoras de informação. Ou seja, há um paralelo interessante a ser feito aqui”, concluiu Marília. Ou seja, este é um debate que tem tudo a ver conosco.

O processo de mobilização em torno dos temas diversidade e direito à comunicação traz elementos novos para o debate. Poucos anos atrás, o tema da mídia não era debatido em profundidade pelos movimentos populares e organizações da sociedade civil.

Sob o ponto de vista do conjunto das propostas, o que se reivindica é a regulamentação do sistema de mídia; a instalação de órgãos reguladores, com participação da sociedade para monitorar, fiscalizar e estabelecer medidas punitivas a mídia; políticas públicas de banda larga, fomento à produção e difusão com perspectiva de gênero, raça e etnia. Para o setor empresarial a maioria dessas propostas limita a liberdade criativa, com a alegação de que controle não combina com mídia e liberdade de expressão. Mesmo diante desse ambiente adverso, as mulheres feministas participaram ativamente de todos os debates e garantiram a aprovação de propostas estratégicas.

E como ganho geral está a tradução de um tema complexo para um número bem maior de pessoas no país, que estarão aptas a multiplicar o conhecimento adquirido em todo o processo, visando amplificar o número de participantes na crucial luta pela democratização da mídia.

Apesar dessa fábrica de presente em que vivemos – sem referência ao passado e sem projeção do futuro – (um “presente altista, como denomina Jesús Martín Barbero), há possibilidades de avanço no processo de redefinição do que significa democracia, a partir do feminismo e da sociedade em rede. Como bem salienta Barbero, “é possível aumentar as brechas para a construção de relatos. A briga com os meios de comunicação de massa tem que ser feita ampliando as brechas, utilizando-se a criatividade brasileira, com cintura flexível e paciência. A esperança se dá através dos desesperados. Como nunca se viu tantos desesperados, hoje, podemos ter esperança!” A esperança de que os espaços privado e público sejam igualmente compartilhados por homens e mulheres, sem discriminação racial, étnica, de classe, orientação sexual, idade…

 

Os eixos temáticos

I- Produção de Conteúdo: conteúdo nacional; produção independente; produção regional; garantia de distribuição; incentivos; tributação; financiamento; fiscalização; propriedade das entidades produtoras de conteúdo; propriedade intelectual; órgãos reguladores; competição; aspectos federativos; marco legal e regulatório.

II- Meios de Distribuição: televisão aberta; rádio; rádios e TVs comunitárias; internet; telecomunicações; bandalarga; TV por assinatura; cinema; mídia impressa; mercado editorial; sistemas público, privado e estatal; multiprogramação; tributação; financiamento; responsabilidade editorial; sistema de outorgas; fiscalização; propriedade das entidades distribuidoras de conteúdo; órgãos reguladores; aspectos federativos; infraestrutura; administração do espectro; publicidade; competição; normas e padrões; marco legal e regulatório.

III- Cidadania: Direitos e Deveres: democratização da comunicação; participação social na comunicação; liberdade de expressão; soberania nacional; inclusão social; desenvolvimento sustentável; classificação indicativa; fiscalização; órgãos reguladores; aspectos federativos; educação para a mídia; direito à comunicação; acesso à cultura e à educação; respeito e promoção da diversidade cultural, religiosa, étnico-racial, de gênero, orientação sexual; proteção a segmentos vulneráveis, como crianças e adolescentes; marco legal e regulatório.

 

As propostas

Das 672 propostas aprovadas na Confecom, pode-se contabilizar que cerca de 144 delas abordam a questão das TIC; 84 citam a perspectiva de gênero e diversidade; 13 focam especificamente a questão da violência contra a mulher; 39 não deixam de ter relação com à violência contra a mulher; e 7 estão relacionadas à questão das TIC e da violência contra a mulher.

As propostas relacionadas às TIC e Violência contra a Mulher:

Proposta 435: Utilização dos canais de telefonia móvel para emissão de mensagens e campanhas de prevenção e promoção de saúde.

Proposta 502: Impedir a aprovação de qualquer projeto de Lei que trate a Internet e seus usuários sob o ponto de vista penal antes da discussão e aprovação de um código de direitos civis dos usuários de Internet.

Proposta 511: Aprovação de lei que defina os direitos civis nas redes digitais que inclua, mas não se limite, a garantir a todos os cidadãos:
1) o direito ao acesso à Internet sem distinção de renda, classe, credo, raça, cor, orientação sexual, sem discriminação física ou cultural;
2) o direito à acessibilidade plena, independente das dificuldades físicas ou cognitivas que possam ter; 3) direito de abrir suas redes e compartilhar o sinal de internet, com ou sem fio; 4) direito à comunicação não vigiada.

Proposta 523: Direito à privacidade na Internet, com regulação eficaz do hábeas data.

Proposta 568: Contra o AI-5 digital do senador Eduardo Azeredo (PSDB/MG) e por direitos civis na Internet, garantindo um ambiente legal e regulatório que respeite o caráter aberto da rede, o direito à privacidade e às liberdades.

Proposta 572: Garantir a Internet de forma que o uso seja livre na rede com direito à partilha de conhecimento, bens culturais e garantia da liberdade de expressão.

Proposta 650: Categorizar cada site por conteúdo, ou seja, extensões no endereço dos sítios eletrônicos tais como: xxx. para sítios pornográficos ou .inf para infantis. Além disso, cada sítio deve fornecer ao usuário a classificação etária referente ao conteúdo existente no site. De modo que os pais possam controlar de maneira mais eficaz o tipo de conteúdo acessado por seus filhos. No caso de blogs, deve constar no termo de adesão ou uso do serviço a classificação etária a partir da descrição do conteúdo do blog feito pelo usuário.

Leia a íntegra das propostas: www.blog.planalto.gov.br

 

Sobre o Brasil

O Brasil, oficialmente República Federativa do Brasil, é uma república federativa presidencialista, localizada na América do Sul, formada pela união de 26 estados federados e pelo Distrito Federal. O país conta com 5.565 municípios. Tem 191.480.630 habitantes. Possui uma área de 8.514.876,599 km², equivalente a 47% do território sulamericano. Em comparação com os demais países do globo, dispõe do quinto maior contingente populacional e da quinta maior área. Oitava maior economia do planeta e maior economia latino-americana, o Brasil tem hoje forte influência internacional, seja em âmbito regional ou global. Encontra-se na 39ª posição entre os países com melhor qualidade de vida do planeta. (www.wikipedia.org/wiki/Brasil)
No Brasil, 22% dos congressistas, ou suas famílias, possuem concessões de rádio e TV, sem nenhum interesse em mudar o marco regulatório do setor.
(revista Fórum. No.82 – janeiro 2010. SP. p.19)

 

Os números do Brasil eletrônico e digital
– O Brasil tem a 2ª maior tarifa de celular do mundo: média de R$0,45 por minuto (USD 0,24). Só perde para a África do Sul, cujo custo é de R$0,50 (USD 0,27). Nos Estados Unidos, custa R$0,10 (USD 0,05).
– 8 de cada 10 pessoas possuem telefone celular (82% no sistema pré-pago, a maioria só para receber chamadas).
– Computador de mesa: 23% da população
– Computador portátil: 5%
– Proporção de domicílios com computador: 25%
– Proporção de domicílios com Internet: 18% (há 13,6 milhões com banda larga, sendo 20% por conexão móvel).
– Aparelho de televisão: 97% da população
– Aparelho de rádio: 86% da população
– Telefone fixo: 45% da população
– Antena parabólica: 20% da população
– Console de jogo: 13% da população
– TV a cabo: 6% da população
(Fontes: www.cgi.br – Pesquisa sobre o uso das TIC no Brasil 2008 e Folha de S.Paulo)

Fotos: autoria de Jacira Melo

 


Ativista chama feministas à votação
 

As mulheres compareceram em peso e fizeram a diferença
 

Luíza Erundina, deputada federal, à esquerda, ao lado de Jacira Melo. Ela foi a única parlamentar presente entre delegados do Congresso. É a grande parceira do movimento feminista desde sempre… Esteve ao lado do movimento social durante todo o processo da Confecom. E vai continuar…

 

(*) Jacira Melo é diretora-executiva do Instituto Patrícia Galvão Comunicação e Mídia. Vera Vieira é coordenadora brasileira do projeto ODM3 – Metas do Milênio, da APC/ PARM. Ambas participaram de todo o processo da Confecom e foram eleitas delegadas pelo estado de São Paulo.


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