Helena Greco, uma grande guerreira da paz

(1916 / 27-7-2011)

Os que jogaram a bomba jamais foram pegos. Como, até hoje, não foram responsabilizados os que torturaram, mataram e fizeram “desaparecer” opositores políticos da ditadura militar. O atentado ocorreu no bairro do Barro Preto, em Belo Horizonte, no ano de 1978.

O alvo era a casa de uma senhora que, mesmo sem pelo na venta, desafiava os donos do poder. Uma mulher que não hesitava em denunciar torturas e torturadores. Por sorte, o portão de ferro da casa de Helena Greco serviu de barreira e o artefato ricocheteou. Fez um buraco razoável na calçada.

Ela estava longe de ser uma garota, quando participou, pela primeira vez, de uma manifestação de rua enfrentando a truculência policial e os gases lacrimogêneos. Na verdade, ela beirava os 60 anos. Era a década de 1970, o país convulsionava entre a repressão militar e os anseios pela liberdades democráticas.

A partir dessa experiência, Helena Greco, nascida em 1916, casada com um médico, mãe de três filhos, amante de boa literatura, pianista bissexta, não parou mais. Logo em seguida à manifestação, fundou e presidiu o Movimento Feminino pela Anistia, em Minas Gerais. O objetivo do movimento era o fim das torturas nas masmorras da ditadura e a vida segura dos exilados políticos. “Anistia ampla, geral e irrestrita” foi a palavra de ordem que ecoou de norte a sul do Brasil.

Helena se tornou, em Minas Gerais, o símbolo da luta pela anistia. Dava guarida a perseguidos políticos. Organizava, onde desse, dezenas de reuniões. Fazia plantão em portas de delegacias e, desafiando o Serviço Nacional de Informações (SNI), embarcou para Roma, representando o Brasil no Congresso Mundial de Anistia. Tudo isso na cara e na coragem e com a convicção dos indignados.

Em 1979, veio a vitória. Os exilados retornaram, os perseguidos puderam reintegrar-se aos antigos trabalhos, nas universidades, na vida política. A anistia não beneficiou tão-somente os anistiados. Favoreceu a reconstrução da democracia brasileira, ao injetar novas perspectivas nos movimentos populares. Muita gente, até então sem voz, “botou a boca no trombone”.

Muitos também, costumeiros batalhadores, se acomodaram. Mas Helena Greco não voltou para a tranquilidade de sua casa. “Percebi que a luta pelos direitos políticos e humanos não se esgotava com os anistiados. Ela tinha que incluir todas as pessoas.” Todas as pessoas diz respeito, principalmente, à grande massa de excluídos dos bens sociais e dos direitos fundamentais.

Ela havia tomado gosto pela participação política. Talvez, em plena terceira idade, tenha se conectado com a menina rebelde que detestava as obrigações domésticas e que, experiência incomum para a época, cursou a faculdade de Farmácia. Ou porque, segundo suas palavras, “a tarefa de transformar a sociedade não é atribuição exclusiva dos jovens, essa tarefa pertence a todos”.

Em 1982, aos 66 anos, Helena Greco foi eleita vereadora pelo Partido dos Trabalhadores (PT), o qual ajudou a fundar. Trabalhou tão bem que foi reeleita. Ela não baixou a guarda nos dois mandatos. Criou e coordenou a primeira Comissão Permanente de Direitos Humanos em um organismo estatal. Também participou ativamente do Grupo Tortura Nunca Mais. Corajosa, denunciou médicos cúmplices da tortura e, por conta da ousadia, enfrentou um processo judicial.

Com a mesma têmpera, demonstrada nos anos de chumbo, ela se voltou para as camadas populares. Sempre entendeu que direitos humanos e cidadania são inseparáveis. “O que me assustava nos trabalhos da Câmara é que as pessoas chegavam quase pedindo desculpas, não tinham noção de que nós éramos pagos com o dinheiro delas.”

Por entender  que os direitos humanos são para todos sem exceção, Helena ampliou o escopo de sua militância. Entraram no rol de seus esforços as mulheres, os negros, as crianças. Ela se empenhou para a criação, na capital mineira, da primeira Casa-Abrigo para mulheres em situação de violência. Participou de iniciativas contra o trabalho infantil. Apoiou as reivindicações do Movimento Negro.

Mas onde ela arranjava tanta garra? Qual o motor que transformou a pacata cidadã em ativista política? É ela quem responde: “A capacidade de me indignar. O valor de não aceitar as iniquidades e de não enxergar as violências como banalidades”. Ao deixar o cargo político, Helena Greco seguiu com sua indignação e não voltou para o sossego de sua casa.

Envolveu-se na articulação entre os movimentos sociais e o Estado. Empenhou-se na criação de uma cultura de cidadania no Brasil, cujo primeiro passo é informar aos excluídos que eles têm direito a ter direitos. Informar às mulheres que elas têm direito a uma vida sem discriminação, aos negros que eles têm direitos iguais aos dos brancos.

Às vésperas de completar 90 anos, Helena Greco finalmente voltou para sua casa. Já não lembra de muitas coisas. Já não fala tanto. Ao menos não fala com as palavras, porque seus olhos seguem dizendo.

[frase que ela destaca] Os direitos humanos ainda não foram conquistados no Brasil.

Texto de Fernanda Pompeu, páginas 70-71-72-73 do livro Brasileiras Guerreiras da Paz, projeto 1000 Mulheres, coordenado por Clara Charf, Editora Contexto, SP, 2006.


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