Morreu a Guerreira da Paz Zilda Arns (1934-2010)

por Fernanda Pompeu

 

Ela tinha 10 anos, quando a madre superiora do Colégio bradou: “Não amarre as asas da Zilda. Deixem-na livre”. Não sabemos quantos escutaram a madre. Mas a menina ouviu e fez da liberdade seu anjo da guarda. “Sentir-se livre é o fundamento para a realização de um bom trabalho.”

Zilda Arns Neumann, alem de médica, é fundadora e coordenadora de uma incrível fábrica de solidariedade. Fábrica que congrega mais de 240 mil voluntários, entre eles, 90% de mulheres. A missão: salvar a vida de crianças de 0 a 6 anos. A estratégia: partilhar conhecimentos e saberes. A filosofia: irmanar fé e vida. A abrangência: 37 mil comunidades em 3.800 municípios espalhados por todo o país.

O nome da fábrica de solidariedade é Pastoral da Criança – organismo social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A idéia da organização nasceu de uma conversa entre Zilda e seu irmão dom Paulo Evaristo Arns. Eles conversavam acerca do que poderia ser feito para ajudar a frear a mortalidade infantil no Brasil.

Zilda não perdeu tempo, com o apoio do Fundo nas Nações Unidas para a Infância (UNICEF), implantou um projeto piloto em Florestópolis, estado do Paraná. A cidade tinha o alarmante índice de 127 mortos para mil nascidos. A experiência foi um sucesso. Zilda então defendeu, em uma reunião da CNBB, a implantação do projeto em escala nacional.

Em 1984, nascia a Pastoral da Criança que, anos mais tarde, exportaria seu modelo para outros países da América Latina, da África e da Ásia. Mas o sucesso de hoje teve detratores ontem. Houve quem menosprezasse o trabalho por ser voluntário, por ser “coisa de formiguinhas”. Houve quem afirmasse que diminuir a mortalidade infantil era dever do Estado. Houve quem desqualificasse a Pastoral, chamando-a de igrejeira.

Acreditando na criatividade das pessoas e na construção de uma cultura de solidariedade, Zilda Arns foi neutralizando, um a um, seus opositores. A todas as críticas, ela respondia mostrando números. “Ninguém contesta um bom resultado.” O fato é que, nas comunidades assistidas pela Pastoral da Criança, a mortalidade infantil declinou sensivelmente.

Declinou porque a proposta da Pastoral compromete, de corpo e alma, gente da própria comunidade. Não distribui pão, óleo de cozinha, feijão. A Pastoral da Criança partilha e multiplica informações acerca de nutrição, higiene, saúde para gestantes e crianças. Paralelamente, sustenta programas de alfabetização de jovens e adultos. “Vamos muito além do bê-à-bá, ensinamos cidadania.”

No pensamento de Zilda Arns, cidadania e esperança andam de mãos dadas. “Sem esperança, “não há força para sair da pobreza.” Sem cidadania, “não há consciência para cobrar direitos”. Força e consciência são suas velhas conhecidas. Nascida em 1934, ela passou a infância em Forquilhinha, interior de Santa Catarina. “Era uma comunidade organizadíssima, Ninguém passava fome.” Ela conta que todos ajudavam a erguer a casa de todos: “Com jardim na frente e quintal atrás”.

Ao lado do exemplo de Forquilhinha, ela também inspirou-se nos pais. Sua mãe era conhecedora de medicina caseira, fazia curativos e dava conselhos de saúde. “Ela era uma líder comunitária perfeita.” Do pai, Zilda herdou o destemor às críticas: “Ele dizia que precisamos ter 30% de opositores para nos sentirmos felizes”.

Católica, Zilda considera a família um bem sagrado. O que não a impediu de fazer o marido, já falecido, prometer que não interferiria em sua vida profissional e em sua liberdade. Ele cumpriu a promessa e colaborou com o cuidado da casa e com a educação dos cinco filhos. “Com frequência eu viajava e ele assumia as crianças”.

Hoje , os meninos são adultos. Hoje, a médica Zilda Arns Neumann é reconhecida, em boa parte do mundo, como autoridade em segurança alimentar para crianças. Ela acumula responsabilidades. Além de coordenar a Pastoral da Criança, representar a CNBB no Conselho Nacional de Saúde. Integra o Conselho Nacional de Segurança Alimentar. Também preside a Comissão Intersetorial de Saúde Indígena e a Pastoral da Pessoa Idosa.

Tanto trabalho não assusta essa mulher de fé. Disciplinada, enfrenta jornadas de até quatorze horas. Ela conta que, na infância, acordava cedinho para ordenhar vacas. “O que uma pessoa aprende quando pequena, não esquece nunca mais.” Possuidora de notável talento administrativo, Zilda poderia ter feito dinheiro na iniciativa privada. Mas isso nunca passou por sua cabeça.

Seu compromisso é o de ajudar pessoas, preferencialmente as mais pobres. Crianças pobres são salva por receitas nutricionais da Pastoral da Criança. Fazer o pão enriquecido aproveitando as verduras, fazer farinha de banana. Tirar do pouco o máximo.

Para Zilda, na no mundo substitui a alegria do Dia do Peso – prática usada pela Pastoral semanalmente. “Uma vez vi crianças senso pesadas debaixo de uma árvore, com a balança amarrada em um galho.” Para ela, ver crianças ganhando peso é a expressão terrena e divina da celebração da vida.

“Eu faço o que posso e peço a Deus que faça o resto”

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