Mulheres pela Paz – Segurança Humana e Justiça (Santo André, SP)
2 de junho de 2008

Objetivos:

• Debater o conceito de paz ancorado na segurança humana e justiça.
* Divulgar para replicar o trabalho das brasileiras indicadas ao Prêmio Nobel da Paz / 2005.
* Discutir formas de conectar a ação das brasileiras com mulheres de outros países, a fim de estabelecer estratégias de ação global.

Participantes: Líderes de movimentos feminista, de mulheres, pela paz.

Realização: Associação Mulheres pela Paz.

Parceria: Sesi; Rede Mulher de Educação; Instituto Governo e Cidadania do ABC; União de Mulheres de São Paulo; Diário do Grande ABC; Prefeitura de Santo André; Fé-Minima – Movimento de Mulheres de Santo André; Câmara de Santo André.

Patrocínio: Petrobras; Governo Federal.

Resumo da Mesa de Apresentação:

Lidiane Pinto Soares (diretora do Diário do Grande ABC) Alertou que pequenos conflitos evoluem para grandes. Daí, pequenas ações pela paz podem se tornar grandes ações.

Maria de Lourdes Ventura (Coordenadora da Fé Mínima Movimento de Mulheres de Santo André e da Casa Beth Lobo – Centro de Referência em Situação de Violência Doméstica) Enfatizou a importância da organização de mulheres, no mundo, em prol da paz. Afirmou que o combate à violência doméstica é uma luta pela paz.

Beatriz Canabrava:  (Rede Mulher de Educação) Discorreu sobre a convivência entre diferentes que se respeitam. Ressaltou a importância dos sistemas de gênero, ou seja, a compreensão de que pessoas e instituições agem dentro da lógica feminino / masculino. Isto é, dentro de um conjunto de elementos que reúnem práticas e comportamentos, historicamente, marcados. Sendo que maior eqüidade de gênero é igual a mais justiça. Lembrou que há 13 anos, por ocasião da Declaração de Pequim, os governos reconheceram que os direitos das mulheres são direitos humanos mas, todavia, persistem as desigualdades.

Teresa Santos (Instituto de Governo e Cidadania) Falou que, mesmo onde não há guerra declarada, como no Brasil, a violência urbana, muitas vezes, é equivalente ao trauma de uma guerra.

Cilmara Florido: (Supervisora de Ensino do SESI) Ressaltou a premência de se trabalhar em prol da paz nos dias que correm.
Dinâmica da Apresentação

A facilitadora Eliana Fausto pede que todas e todos se levantem e propõe um exercício de alongamento. Enquanto todas se esticam, a facilitadora vai orientando: “Levantam as mãos para cima e puxem a paz de dentro de vocês”. “Para alcançar a paz, é preciso mais flexibilidade no dia-a-dia. / É necessário ter jogo de cintura.”. Na seqüência: uma pessoa apresenta a outra e, assim, todas as participantes ficam conhecidas. Por fim, é pedido que todo mundo complete a frase: Para mim paz é…:

 

Abaixo as respostas:

Paz é: respeitar as diferenças; serenidade; harmonia; união; tudo ou nada dependendo da nossa capacidade de olhar a realidade com os nossos olhos e com os olhos de outros; capacidade de se indignar com a injustiça social; transformação; eliminação do ego; luta, cidadania; liberdade, é ter as  necessidades primária atendidas para ter paz interior e lutar pela paz exterior; justiça e dignidade, não-violência; luta continuada pela paz; tudo, equilíbrio; ações diárias em prol da justiça; ações de respeito; utopia; alegria; vida em abundância. preservação do meio ambiente; respeito; um direito; um estado de espírito; atitude; exercício da tolerância; generosidade com o outro e a outra; convivência fraterna na diferença; vida; justiça; fundamento; igualdade de oportunidades; diálogo e igualdade; relações justas; respeito às diversidades; respeito à dignidade humana; justiça social;  aquilo que o mundo necessita no momento; dignidade respeitada; tudo o que se precisa para o cotidiano; ações edificantes; harmonia em grupo; diálogo.

 

Resumo da Mesa de Apresentação:
Moderadora:
Vera Vieira (diretora executiva da Associação Mulheres pela Paz)
Clara Charf (presidenta da Associação Mulheres pela Paz) Narrou a gênesis do Projeto 1000 Mulheres pela Paz.  Contou que o desafio do Projeto foi tornar visível as lutas das mulheres anônimas. A estratégia: indicar 1000 mulheres de todo mundo para o Nobel da Paz de 2005. A idéia de premiar coletivamente foi uma ousadia. No Brasil, foram a 52 nomes. Um trabalho que envolveu urgência e coração.

Falou do livro Brasileiras Guerreiras da Paz (remeter para o livro Brasileiras Guerreiras da Paz). Frisou que, para as mulheres, a paz é construída no cotidiano. A mulher que está na periferia lutando por água, por moradia, contra o sexismo, contra o racismo, contra a falta de renda é uma guerreira. Finalizou dizendo que o atual desafio é divulgar o trabalho da Associação Mulheres pela Paz.
Maria Amélia de Almeida Teles, Amelinha (uma das 52 brasileiras indicadas para o Prêmio Nobel da Paz / 2005; coordenadora da União de Mulheres de São Paulo) Disse que a paz é um tema muito caro para as feministas, pois o conceito de paz politiza nossa vida íntima (e do nosso cotidiano). Chamou a atenção para a conquista dos direitos das mulheres terem sido reconhecidos como direitos humanos. As mulheres lutavam pelos direitos gerais e não tinham a plenitude de direitos. Por exemplo, a Revolução Francesa tratou da igualdade, mas negou o direito das mulheres ao voto. Hanna Arendt bem dizia: “Nós não nascemos iguais. As oportunidades não são para todos”. O que nós, mulheres, queremos? Mudar o mundo para ter igualdade para todos e todas. Nesta perspectiva, os direitos humanos são uma construção. A luta das mulheres é luta dobrada. Por fim, direitos humanos não é bandeira, é caminho. Amelinha também ressaltou a capacidade de invenção e criatividade para “reinventar” o mundo, tendo os direitos humanos como alavanca para a transformação. As mulheres devem atentar para os documentos internacionais. É necessário se apropriar dos marcos teóricos e trazê-los para a luta do cotidiano. Finalizou afirmando que se não erradicarmos a violência contra a mulher, não teremos paz. A violência de gênero é construída pela mídia, pelos sindicatos, pela escola, pela família , pela Igreja etc. Ela citou a Convenção do Belém do Pará e a Lei Maria da Penha como instrumentos poderosos.

Ivete Garcia (vice-prefeita de Santo André) Ela contou que trabalhou em uma fábrica, nos anos 80. Nessa época, a região do grande ABC era politicamente efervescente. Conheceu, então, as pessoas que foram perseguidas pela ditadura militar. A lado disso, foi ouvindo palavras de ordem feministas: Meu corpo me pertence; chana com chana; direito ao aborto. A luta de classe se juntou à luta das mulheres. Daí, ela passou integrar o movimento sindical ao lado das feministas. Dessa militância, saíram as primeiras propostas dos sindicatos trabalharem as questões das mulheres. Lembrou que gênero, raça, classe social caminharm juntos. As mulheres são as que mais sofrem com a falta de infra-estrutura (água, esgoto, iluminação). Hoje, sabemos que o desenvolvimento local só é possível se incluir mulheres, crianças, negros. Daí, é importante acreditar no micro. Não dá para começar pelo macro. Ações micro criam redes informais. Nossas ações, em rede,  inspiraram políticas públicas. Ivete também fez  uma reflexão acerca da crise de valores que atinge, em cheio, a população. Muita gente conhece o preço das coisas, mas não os valores. Para mudar isso, é necessária uma educação pela paz. Ou seja, trabalhar o futuro com valores que não têm preço. Diz que a Agenda 21 e Metas do Milênio coincidem nos valores e precisam ser amplamente divulgadas. Termina dizendo que para ter paz é preciso ir à luta. Os conflitos são inevitáveis, mas é preciso saber trabalhar como eles. Dentro do conflito é possível construir a paz. A partir da ação local se muda o mundo.

 

DEBATE

Haidi Jarschel (Entre Nós Assessoria Educação e Pesquisa em Gênero e Raça e do Observatório da Mulher). Ponderou que, no trabalho pela paz e direitos humanos das mulheres, há muito o que fazer. Por exemplo, somos violentas quando não guardamos a memória das mulheres. Desde os anos 80, há uma tradição de luta das mulheres do ABC. As mais jovens desconhecem a história, mas há culpa da parte das mais velhas. Construir a paz é ter o espírito da ação coletiva. Cada pessoa é peça fundamental na construção coletiva.

Maria Inês Soares (ex-prefeita de Ribeirão Pires e, atualmente, coordenadora da Macro ABC do PT). Lembrou que o Código Civil Brasileiro, até pouco tempo, atribuía o direito do filho ao pátrio poder. Quem decidia as grandes questões era o pai. É bom olhar para os avanços. Hoje, o Código Civil fala em direito familiar. Ela também pediu cuidado com os comentários do tipo: “onde estão as mães?” É preciso perguntar, também, onde estão os pais. Quando uma criança é abandonada, todo mundo quer saber onde está a mãe, ninguém menciona o pai.  A dura realidade é que muitas mulheres se colocam como incapazes de cuidar dos filhos. Muitas vezes, elas são julgadas por outras mulheres de forma severa. Temos que ser mais sensíveis com as mulheres vítimas de uma rede de proteção social que furou.

Maria Aparecida Ruiz Soliani (assessora de políticas de cidadania do Núcleo de Políticas de Gênero para Geração e Pessoas com Deficiência  da Prefeitura de Santo André).  Levantou um grande incômodo: mulheres ativistas que ascendem a espaços de poder, muitas vezes, deixam de ser companheiras de outras mulheres.

Carolina Córdoba (fundadora da Associação dos Cabeleireiros do ABC) Contou que, quando se separou do marido, propôs a guarda compartilhada. Diz que mulheres com ciúmes do marido (e vice-versa) atrapalham a vida dos filhos. Acredita ser uma grande vitória o instrumento de Guarda Compartilhada.

Marilda de Oliveira Lemos (Fé Minina – Movimento de Mulheres de Santo André) Chamou atenção para este período eleitoral (junho de 2008), quando os partidos políticos estão elaborando planos de governo. Disse esperar que todos estejam discutindo políticas para mulheres. Mas a questão crucial é  onde essas políticas serão alocadas.

Marcela Belic Cherubine (Instituto de Governo e Cidadania) Ressalta que as Políticas Públicas são importantes porque afastam o voluntarismo. Conta ter feito o curso Promotoras Legais Populares e que muitas entidades saíram desse curso. Na sua opinião, o curso mereceria ser uma Política Pública. Também ressalta o papel das escolas na educação de gênero. Por exemplo, pelo ensino da Filosofia. Isto seria investir a longo prazo para ter resultados de paz. Seria pôr a garotada para discutir ética.

Silmara Aparecida Conchão: (coordenadora do Programa de Saúde da Juventude de Santo André) Perguntou: quando a educação não-sexista sairá do papel?  Cita o exemplo da educação infantil, na Suécia, que trabalha questões de gênero. “Isso ajuda muito na luta contra a violência”. Finalizou dizendo que nasceu duas vezes: da barriga da mãe e quando entrou no feminismo.

Beatriz Canabrava:  (Rede Mulher de Educação) Citou o programa Educar para não Discriminar (comemorado no 21 de junho). O programa toca em discriminações de gênero, raça, etnia. Conta de sua experiência de trabalhar com educadoras de creches. Ela indagava: por que, nas creches, havia caixas de brinquedos para meninas e meninos? Por que canecas rosas e azuis? Ela propôs que tudo fosse misturado. Descreveu uma cena emblemática: um menino chegou maquiado (na creche) deu a volta na sala e depois disse: “Vejam como estou lindo vestido de  artista”. Se uma educadora censurasse o menino, seria criada a discriminação.

Teresa Santos (Instituto de Governo e Cidadania) Afirmou acreditar que o poder público pode organizar ações pedagógicas, principalmente, nas periferias. Elogia os espaços multiuso. Pois, é importante discutir, nas comunidades, direitos e intolerância. Também lembrou que a opressão tem a conivência dos oprimidos. Muitas mulheres fecham os olhos ao abuso das filhas pelos pais. Essas mães sentem-se fragilizadas e impotentes. Disse ser fundamento, para transformar a sociedade, a mudança cultural. Quanto mais mulheres, negros, crianças tomarem consciência de seus direitos, mais fortes ficarão.

Ivete Garcia (vice-prefeita de Santo André)  Ressaltou a importância de superar o estrelismo e egocentrismo. Afirmou ser necessário conquistar espaços de poder, mas fazê-lo de maneira solidária. Pede cuidado com a chamada “mulher desculpa” – aquela que está ao lado dos que têm poder apenas para fazer número. Apenas para que os homens fiquem bem na fita. Reiterou que as mulheres não podem abrir mão de atuar nos espaços institucionais. Por fim, citou que maternidade e culpa sempre andaram juntas. O machismo é uma ideologia que está na sociedade. Há muitas mulheres que incorporam o machismo. Daí, as s mulheres precisam ser trabalhadas para a transformação. Conclui dizendo que as mulheres querem políticas de direito e não políticas de proteção. “Não queremos ser protegidas, queremos ter direitos”. Se não resgatar a auto-estima das mulheres as coisas não mudam.

Maria Amélia de Almeida Teles, Amelinha (uma das 52 brasileiras indicadas para o Prêmio Nobel da Paz / 2005; coordenadora da União de Mulheres de São Paulo). Relembrou que o patriarcado privilegia os homens de todas as maneiras. Para romper com isso é preciso se rebelar. Afirmou que a vida será bem melhor se nós participarmos. Ressaltou que as feministas não são contra os homens. Na verdade, elas foram as primeiras a denunciar o patriarcado. Pediu cuidado com a ideologia “familiarista”, que apresenta a família como se fosse hierarquicamente igual. O que nunca foi verdade. Também comemorou o avanço de considerar que onde há relações de afeto, há uma família.

Clara Charf (presidenta da Associação Mulheres pela Paz) Pontuou que, por muito tempo, a paz estava ligada aos cemitérios e ao protesto contra as grandes guerras. Recentemente, a ONU definiu paz como segurança humana e justiça. A partir dessa definição, a luta das mulheres por segurança humana e justiça foi incluída na luta em prol da paz no planeta. Clara relembrou de uma experiência vivida em uma creche em Cuba. Onde brinquedos eram separados para serem dados para crianças africanas. A filosofia era: um ser humano pacífico dividi o que tem com outras crianças. Conclusão: a paz é construída com ação. Por fim, ressaltou o papel do ABC no tocante ao grupos de mulheres. Papel protagonista que sempre acreditou que o trabalho da sociedade civil tem que pressionar o poder público.

Dentro desse espírito, a Associação Mulheres pela Paz se esforçará para conectar mulheres em todo o mundo. Mulheres coligadas nos municípios, no país, no mundo.
Dinâmica: Café das Mulheres pela Paz
Facilitador: Arnaldo Bassoli (psicólogo)

Mesas forma dispostas com cinco lugares cada. Em cima delas, canetas coloridas, post-it amarelo grande, arranjos de ikebana. As participantes sentaram onde quiseram. Arnaldo se apresentou e contou uma história, cuja moral é: o que as mulheres querem é ser donas do seus destinos. Depois fez uma explanação acerca das formas de conversação, a saber: debate, diálogo, discussão, deliberação. Disse que a forma a ser trabalhada nas mesas será a do diálogo: no qual ouvir o outro / a outra é fundamental. No diálogo, há empatia. Empatia, etimologicamente, é: compreender o sofrimento do outro. Para acontecer um diálogo: todas as pessoas devem se sentir iguais. Da vice-prefeita à dona-de-casa. A dinâmica aconteceu: as pessoas responderam a pergunta feita por Arnaldo: Como posso, através das ações e acontecimentos do meu dia-a-dia, agir para a paz? Enquanto isso, dois ilustradores do Diário do Grande ABC fizeram caricaturas dos participantes (que foram afixadas na parede). Por fim, a última parte: a colheita. Arnaldo pergunta: o que foi dialogado de interessante?
Respostas:

Beatriz Canabrava: Sou educadora popular feminista. Minha função é pôr minhoca na cabeça das pessoas.

Luzia Góis Bento: Às vezes, para arrumar as coisas precisamos primeiro desarrumar.

Clara Charf: A ação individual  precisa refletir no coletivo. A gente precisa juntar as pessoas. Mas para fazer isso é preciso manter a alegria no trabalho. É preciso deixar a arrogância de lado e abrir o coração.

Vereadora Loló: Quando paramos para refletir, vemos o quanto nós, as mulheres organizadas, já fizemos. Também é importante celebrar as conquistas.

Maria Aparecida Ruiz Soliani: Santo André e São Caetano precisam compartilhar experiências.

Nilza de Oliveirra: Somos mulheres que tivermos oportunidades. Devemos nos aproximar mais das mulheres populares. Damos muito pouco, pois sabemos muito e devolvemos pouco para às populares. “Às vezes, chegamos com dogmas, receitas e não ouvimos”. Paulo Freire dizia: “O oprimido só se libertará com sua própria ação. Mas nós podemos ajudar”.

Débora Diogo:  Como lidar com espaços quando chegam pessoas novas? Como circular sem ofender? Sem invadir?  Devemos pensar a partir da própria vida. Pensar a partir da prática doméstica. Como é a relação com filhos, pais companheiros e companheiras?

Carla de Oliveira:  É difícil escutar o outro. Também é difícil escutar a si própria. A gente deve permitir o emocionar-se. Mas precisamos dosar razão e emoção. O ideal é que sejamos razão e emoção.

Solange Ferrarezi: Respeitar seu limite e ressaltar no outro o que ele tem de bom.

Vera Emília Chiavelli Teruel: Agir pela paz é estar em paz consigo mesma. Ser Com Vencida e não vencida.

Dança Circular (encerramento)
Facilitadora:
Eliana Fausto
Foram trabalhados movimentos, passos. Sempre com as mãos dadas, as pessoas evoluíram em coreografias coletivas. A proposta da dança: que a conexão não se dê tão-somente pela razão. Ela propôs que todos e todas prestem atenção na linha, no caminho, no comum (o que eu posso fazer junto com o outro?).  Ao final, concluiu: “Às vezes é difícil, mas a gente pode fazer do nosso jeito”.


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